Desde criança, ouvia meus pais falando sobre tolerância, bondade e respeito ao próximo! Achava uma grande balela, afinal, do “alto” dos meus cinco anos de idade, estes eram assuntos chatos demais para um almoço em família! Eu estava preocupada em lavar os cabelos das minhas barbies e fazer a tarefa da escola o mais rápido possível, para me livrar da obrigação e poder brincar na rua!

Bondade naquela época para mim era aquela que vinha do “tio” da venda da esquina, perto de casa, lá no bairro Ribeirão Fresco, em Blumenau, que me dava balinhas de presente!

Pouco tempo depois, na enchente de 1984, vi na prática aquilo que meus pais me falavam tanto. Deram abrigo e comida para 23 vizinhos que perderam tudo com as águas! A cena é clara na minha memória: meu saudoso pai, abanando lençóis brancos na varanda de casa, para que o helicóptero do Exército jogasse comida para toda aquela turma, que nos incluía!

Minha mãe trocou a roupa chique da advogada que ia ao fórum, pelo avental, e virava a noite na cozinha fazendo comida para nosso batalhão, enquanto nós íamos cortar cana no vizinho para alegrar as crianças com algo doce pra comer!

Assim, passamos todos aqueles dias, dividindo, fazendo o milagre da multiplicação dos pães, e abrindo mão da nossa privacidade e conforto, para estender a mão ao próximo!

Achei aquilo tão comovente! Meus pais eram meus heróis! E eles estavam certos. Ensinaram-me na prática que realmente valia a pena ser bom e ajudar a quem precisava!

Depois de um estalo forte, seguido de um estrondo, numa manhã de domingo, tivemos que abandonar a nossa casa, porque o morro soterrou parte dela. Nenhum ferido, com a graça de Deus, e lá fomos nós de canoa, até a Ponta Aguda, para a casa dos meus avós!

Novamente, a bondade se fazia presente. Seu Osmar, morador da rua, remava sozinho incansavelmente para salvar o “seu povo”, como ele costumava chamar a vizinhança!

Meus pais prontamente deixaram que os 23 ficassem na nossa casa, abrigados na parte da frente, onde não existia tanto perigo de desabamento. A enchente passou e voltamos lá, no meio da lama, para ver os estragos e começar as obras de reconstrução! E para a surpresa de todos, alguns dos nossos 23 “amigos” e hóspedes, saquearam a nossa casa e nos roubaram quase tudo! Roupas, enfeites, louças e até cortinas, que depois decoravam as casas deles, sem nenhum tipo de constrangimento!

Ali, eu ainda tão nova, comecei a ter menos fé na humanidade, pois eu vi aqueles que foram ajudados passando uma belíssima rasteira naqueles que só fizeram o bem! Via o choro da minha mãe, sendo consolada pelo meu pai, que dizia que Deus é grande e tudo vê!

Dali pra frente, eu me tornei a pessoa que sempre confiou, desconfiando! Nunca deixei de ajudar, mas coloquei meus próprios limites no tamanho da ajuda e para quem ela iria!

O tempo passou, meu pai se foi, e as notícias que temos hoje vão me mostrando que as pessoas já estavam doentes desde aquela época, mas agora o buraco é mais embaixo! A doença está mais grave e o que é pior: tornou-se altamente contagiosa!

Esta doença tem origem na intolerância, na maldade, na falta de discernimento e de respeito! Atenta-se contra a vida do outro como se age diante de uma barata voadora: é matar ou matar, sem piedade!

Roubar e mentir tornou-se corriqueiro, tanto é que a honestidade hoje é digna e merecedora de aplausos e elogios! Não há mais diálogo pacífico, construtivo, e o bom senso desapareceu! O bem e o mal, o certo e o errado, se misturaram e hoje viraram um grande pirão sem sabor e difícil de engolir!

Quando meninos matam meninos na escola, quando fanáticos explodem inocentes, quando o bandido atira sem piedade para roubar um relógio, quando a polícia extermina outros inocentes, quando homofóbicos espancam homossexuais, é a comprovação de que o mundo está realmente doente! Pedófilos disfarçados, mensagens em vídeos incitando crianças ao suicídio! O mundo está na UTI!

Pais cada vez mais ocupados com seus trabalhos e metas a serem atingidas, filhos trancados a sete chaves em seus quartos curtindo a irreal vida virtual, bêbados matando no trânsito, mulheres apanhando dos maridos e sendo assassinadas! O mundo respira por aparelhos! Parece que chegamos ao fim! O mundo entra em coma!

Estamos tão contaminados que tememos por vermos alguém andando do outro lado da calçada, não andamos mais com os vidros do carro abertos para pegar um ventinho! Desconfiamos do entregador, da pessoa que pede dinheiro na sinaleira ou que tem uma agradável e inteligente conversa! O mundo não tem volta!

Passamos a não confiar mais no próximo e muito menos a ajudá-lo! Não nos ligamos mais nos aniversários: o WhatsApp nos quebra um galho e faz isso pela gente da forma mais fria de todas! É simples: um copiar, um colar e pronto! A mensagem está lá!

O mundo está dando os últimos suspiros e espera a extrema-unção! Não nos comovemos mais com a dor alheia, mas não hesitamos ao alfinetar ou ofender alguém nas redes sociais! Tudo virou motivo de discussão e histeria neste universo maluco que estamos construindo! Não nos abraçamos mais! Não paramos para tomar um café com os amigos, porque estamos sempre com pressa! O mundo morre!

E morre tomado por seres emocionalmente frágeis, apressados, egoístas, calculistas, que cultivam o ódio e rancor, e que nem mais balas às crianças são capazes de dar, como fazia o “tio” da venda da esquina há mais de trinta anos, lá no Ribeirão Fresco!